quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

eleição sem lula é fraude?






Não, responde o filósofo Hélio Schwartsman em breve artigo publicado no jornal Folha de São Paulo, reproduzido abaixo. É simplesmente cumprimento da lei. Se a lei vale para um bandido comum, também vale para figuras emblemáticas da política nacional, como Lula. Pois ou a lei vale para todos, ou não vale para ninguém. Ou vivemos o império da lei, ou a barbárie...

Eu também gostaria ver Lula afastado do poder pelo resultado das urnas, pela "vontade do povo brasileiro". Mas nestas alturas da vida, se nunca acreditei em Papai Noel, então não tenho motivos nenhum para acreditar na ficção "vontade do povo brasileiro".

O sistema político está podre desde sempre, desde antes do ciclo militar e durante todo o período de reconstitucionalização do país até os dias atuais e, tudo indica, permanecerá ainda assim apodrecendo mais e mais ainda por longas décadas... 

E ao sistema político podre apodrecido apodrecendo interessa a eleição de Lula. Assim, a corrupção sistêmica integrante das engrenagens do poder continuará formatando a "vontade do povo brasileiro" sempre a favor de si mesmo, de sua perpetuação no tempo e no espaço...

A narrativa lulopetista "se Lula for condenado, é fraude" é bem própria da mentalidade totalitária degenerada que tanto empolgou no passado assim como no presente, e quiçá no futuro, a esquerda retrógrada. 

Concordo com Hélio: fraude é não cumprir a lei no julgamento de Lula. Mas pressinto que isso não acontecerá... felizmente, alimentando a pouca esperança de que algum resquício de democracia ainda existe em nosso país.


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Eu gostaria de ver Lula concorrendo à Presidência da República e perdendo. Embora o Brasil seja um lugar "sui generis", não creio que tenha ficado tão disfuncional a ponto de recolocar no cargo máximo do país o líder da legenda que acaba de provocar uma das maiores recessões da história —e sobre o qual ainda pesam graves suspeitas de corrupção.

Penso também que um pleito sem Lula deixaria um fio desencapado no processo político. Petistas passariam o resto dos tempos se queixando de que foram desclassificados no tapetão. Para reduzir o caráter de rixa que vem marcando as últimas corridas eleitorais, seria melhor que o capítulo Lula fosse encerrado por uma decisão das urnas e não dos tribunais.

Se, porém, o ex-presidente tiver sua condenação confirmada pelo TRF-4 na próxima quarta-feira (24), não vejo como deixar de aplicar a Lei da Ficha Limpa (LC nº 135/2010), que o excluiria da disputa. Confesso que nunca gostei muito dessa norma, contra a qual já escrevi algumas colunas. Mas, se o prejuízo de uma eleição sem Lula fica restrito ao campo das conveniências políticas, passar por cima da lei para admitir o petista no pleito causaria um dano de ordem institucional. E, a essa altura, tudo o que não podemos fazer é fragilizar ainda mais as instituições.

Nesse contexto, eu diria que, se há alguma ameaça de fraude no ar, ela está menos em tirar Lula da eleição —o PT e suas ideias, afinal, não estão sendo calados, já que o partido estaria apto a lançar outro candidato —do que em deixar deliberadamente de aplicar uma lei que foi quase universalmente apontada como virtuosa apenas porque o resultado não nos agrada.

Não há como não apontar a ironia de que a Ficha Limpa leva a assinatura de Luiz Inácio Lula da Silva, que foi quem a sancionou, sob o aplauso de petistas como Dilma Rousseff. 


sábado, 6 de janeiro de 2018

o que esperar do brasil a partir de 2018?





O mundo está passando pela mais espetacular revolução dos últimos 500 anos. Não é exagero dizer que estamos evoluindo da humanidade para a pós humanidade, do homem para o pós homem. Se dormíssemos hoje e acordássemos daqui 20 anos, não mais reconheceríamos o mundo em que vivemos e nem as criaturas ditas humanas, entre outros animais, que nele viveriam...

E o Brasil, tem algum futuro neste contexto? André Lara Resende, um dos mais notáveis economistas brasileiros, propõe algumas respostas a essa indagação em artigo publicado no jornal Valor, intitulado "O que esperar do Brasil em 2018", que transcrevo abaixo.

Sem mais delongas, sugiro ao improvável leitor deste blog que passe imediatamente à leitura do mencionado artigo.


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O sentimento que hoje dá a tônica no Brasil é o de desalento. Depois de três anos da mais grave recessão da história do país, a economia dá sinais de recuperação, mas ainda não há investimento para garantir um novo ciclo de crescimento. Não há investimento porque a confiança não se recuperou. O país está à espera das eleições presidenciais de 2018. A esperança que ainda tempera o desalento é que o presidente eleito em 2018 seja capaz de recolocar o país nos trilhos. Recolocar o país nos trilhos tem diferentes interpretações, mas há um relativo consenso sobre os problemas a serem enfrentados. Corrupção, criminalidade e violência nas cidades, saúde pública, desigualdade de educação e de riqueza são questões que há décadas nos atormentam e só se agravaram. São questões eminentemente políticas, que dependem do poder público, questões incapazes de serem resolvidas por iniciativas individuais, ou mesmo corporativas, com ou sem fins lucrativos. Temos a impressão de que são problemas nossos, uma especificidade do país que atravessou o século XX sem conseguir chegar ao Primeiro Mundo, mas a verdade é que são problemas que afligem, em maior ou menor grau, todas as grandes democracias contemporâneas. Basta observar os Estados Unidos hoje. A lista acima, dos nossos grandes problemas, seria integralmente aceita para descrever as questões que afligem a mais rica e bem-sucedida democracia contemporânea.

Num pequeno livro publicado originalmente em 1993, "O Fim da Democracia", Jean-Marie Guéhenno, diplomata francês, professor da Universidade de Columbia, defendia uma tese que, à época, parecia precipitada e provocadora. Sustentava que havíamos chegado ao fim de uma era. O período da modernidade, da democracia, iniciado com o Iluminismo do século XVII, cujo apogeu se deu no século passado, se encerrava com o fim do milênio. Diante do mal-estar que hoje se percebe, em toda parte, não apenas em relação à democracia representativa, mas em relação à própria política, a releitura do ensaio de Guéhenno nos deixa com a impressão de se tratar de uma reflexão profética sobre a crise deste início de século.

A modernidade se organizou a partir da crença nas instituições democráticas, na força das leis para organizar e controlar o poder. Difundiu-se a tese de que a melhor maneira de regular a convivência, organizar a sociedade era limitar o poder pelo poder, distribuindo-o entre vários polos e instâncias. As construções institucionais que organizam essa distribuição do poder, de maneira que impeça a usurpação por um deles, ou colusão entre eles, num delicado equilíbrio de distribuição, não apenas do poder, mas também da riqueza, é o que caracteriza a democracia moderna.

No passado, antes do enriquecimento que acompanhou a era da razão e da indústria, a riqueza fundiária era o único poder. O poder político não se distinguia do poder econômico, ser poderoso era, sobretudo, escapar da miséria generalizada. A democracia institucional da modernidade foi um extraordinário progresso em relação à concentração do poder e da riqueza das épocas passadas, mas, nessa passagem de século, as instituições democráticas se tornaram obsoletas. Há dificuldade em admiti-lo, porque não temos o que pôr no lugar da democracia representativa. Não conhecemos uma forma de melhor organizar a sociedade. As palavras democracia, política, liberdade definem o espectro de nossa visão de um mundo civilizado, mas não temos mais certeza de saber o seu verdadeiro sentido. Nossa adesão, à construção institucional e aos valores da democracia moderna, é mais um reflexo condicionado do que uma opção refletida.

O poder voltou a estar associado à riqueza e ao dinheiro, agora desmaterializados, ao sabor exclusivo das expectativas

Com a densidade demográfica e o progresso tecnológico, sobretudo nas comunicações, a sociedade dos homens se tornou grande demais para formar um corpo político. Não há mais cidadãos, pessoas que compartilham um espaço físico e político, capazes de expressar um propósito coletivo. Todos se percebem como titulares de muitos direitos, e cada vez menos obrigações, num espaço nacional pelo qual não se sentem responsáveis, nem necessariamente se identificam. Na idade das redes, da mídia social, a vida pública e a política sofrem a concorrência de uma infinidade de conexões estabelecidas fora do seu universo. Longe de ser o princípio organizador da vida em sociedade, como o foi até algumas décadas atrás, a política tradicional passa a ser percebida como uma construção secundária e artificial, incapaz de dar resposta aos problemas práticos da vida contemporânea. Sem a política como princípio organizador, sem homens públicos capazes de definir e representar o bem comum, a pulverização dos interesses, longe de resultar num consenso democrático, leva à radicalização na defesa de interesses específicos e corporativos. Na ausência de um princípio regulador, universalmente aceito como acima dos interesses específicos, a tendência é a da radicalização na defesa de seus próprios interesses. Não há mais boa vontade com os que discordam de nós, nem crédito quanto à suas intenções.

Sem confiança e boa-fé, os elementos essenciais do chamado capital cívico, não há como manter viva a ideia de nação, de uma memória e de um destino compartilhado. Num primeiro momento, tem-se a impressão de que a confiança e a boa-fé, vítimas da sociedade de massas, poderiam ser substituídas, sem prejuízo do bom funcionamento da sociedade, pela institucionalização e pela formalização jurídica das relações. O que é um avanço, o domínio da lei, quando levado ao paroxismo, quando se depende da lei, dos contratos jurídicos para regular até mesmo as mais comezinhas relações cotidianas, é sinal inequívoco da erosão do capital cívico. O sistema jurídico, os advogados, se tornam o campo de batalha, os exércitos, de uma guerra onde cada um, cada grupo, se agarra obstinadamente aos seus interesses e "direitos" particulares. Quebrar um contrato, desobedecer à lei, é passível de punição, mas fora dos contratos e da lei tudo é permitido, não há mais princípios nem obrigação moral. Quando não existe mais terreno comum fora dos contratos jurídicos, quando não é mais possível, de boa-fé, baixar as armas e confiar, é porque não há mais terreno comum e a decomposição da sociedade atingiu um estado avançado. O estágio final é a decomposição das próprias instituições que fazem e administram as leis.

Talvez a mais polêmica das teses de Guéhenno, à época da publicação de seu ensaio, fosse a de que o princípio organizador do poder no mundo contemporâneo fragmentado é a riqueza. Não mais o capital, capaz de organizar e explorar o trabalho, como queria a tradição marxista, mas a riqueza em abstrato. Com a desmaterialização da economia, provocada pela revolução digital, o capital e o trabalho caminham rapidamente para se tornar dispensáveis. A riqueza é criada e destruída com extraordinária velocidade e de forma completamente dissociada do que restou do sistema produtivo do século XX. No mundo contemporâneo o poder voltou a estar associado à riqueza e ao dinheiro, agora desmaterializados, ao sabor exclusivo das expectativas, das percepções coletivas, que tanto se expressam como se validam na criação de riquezas abstratas, tão impressionantes como voláteis.

Para Guéhenno, é sob este prisma, do dinheiro como o princípio organizador do poder, que se deve analisar a corrupção no mundo contemporâneo. Longe de ser um fenômeno arcaico, lamentável sinal de uma sociedade subdesenvolvida, incapaz de distinguir entre a fortuna particular e o bem público, a corrupção é um elemento característico da sociedade contemporânea. Quando o Estado e a política deixam de ser o princípio organizador do bem comum, quando políticos e funcionários passam a serem percebidos e a se perceber como meros prestadores de serviços para uma multiplicidade de interesses específicos, é natural que sejam remunerados, diretamente pelos interessados, pelos serviços prestados.
No mundo onde o relacionamento vale mais do que o saber, onde o poder público é visto apenas como facilitador de interesses particulares, a chamada corrupção, desde que não saia de controle, é apenas uma forma de aumentar a eficiência da economia. O valor supremo é a eficiência da economia na geração de riqueza. A política e a alta função pública, há tempos, perderam importância e prestígio. Os sucessivos "escândalos" de corrupção com recursos públicos nas democracias contemporâneas não são uma anomalia, mas a consequência lógica do triunfo do único valor universal que sobrou no mundo pulverizado das redes, o dinheiro, como indicador de sucesso pessoal e de sucesso das sociedades. A riqueza se tornou o gabarito comum, a única referência através da qual é possível estabelecer comunicação entre indivíduos e tribos que nada mais compartilham, a não ser a reverência em relação à riqueza.

O tempo deu razão a Guéhenno. Suas teses, hoje, parecem menos extravagantes. A revolução digital, a pulverização das identidades, a desmaterialização da economia e o fim do emprego industrial tornaram obsoleta a política das democracias representativas. Nosso desalento não é exclusividade nossa. O que poderia servir de consolo é, na verdade, evidência de que o problema é mais grave do que se imagina. É bom que se tenha consciência, para não depositar esperanças infundadas nas eleições de 2018. Para recolocar o país nos trilhos, para dar fim ao desalento, não basta evitar os radicalismos. É preciso ir além de uma proposta moderada reformista, pautada pelo que o país deveria ter conseguido ser no século passado. É preciso ter o olhar voltado para o futuro, e o futuro é o da economia digitalizada, da inteligência artificial, com profundas repercussões na forma de se organizar a economia e a sociedade. Pode ainda não estar claro onde a estrada nos levará, mas é preciso estar na estrada para não ficar definitivamente para trás.


André Lara Resende é economista

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Lula: o eterno retorno do discurso populista de esquerda




Analisando os discursos de Lula nas últimas apresentações públicas, naquilo que a política como espetáculo transformou a política, Celso da Rocha Barros destaca o conflito que provavelmente poderá ocorrer entre o que ele vem pregando e a realidade que enfrentará, caso eleito - em artigo publicado no jornal Folha de São Paulo, intitulado "Discurso de esquerda não dá a Lula a menor chance de fazer um bom governo", que reproduzo abaixo.

Nosso problema como cidadão comum é a não aceitação da realidade. Concordo: não devemos aceitar passivamente tudo. E ter um ponto de vista crítico mesmo em relação aquilo que não podemos mudar é essencial, até para nossa saúde mental.

Se o cidadão comum vive o conflito entre o real e o ideal, apegando-se ao ideal para fugir do real ou, até, para brigar contra o real, o candidato a um cargo político que o representará, para se eleger deve conectar-se a sua vontade, expressa em seus desejos.

Antenando-se com a vontade do cidadão, o candidato tem a obrigação moral de corrigir suas expectativas inalcançáveis e acolher do eleitor aquilo que realmente poderá ensejar ação concreta, atendendo seus anseios. Isso é o política do possível. 

O esclarecimento ao cidadão, levando-a a entender porque todas suas expectativas não poderão ser atendidas, ao menos de imediato, faz parte da ética de responsabilidade que deve nortear a conduta do candidato a político responsável. 

Acontece que nossa tendência é negar a realidade. E assim, enquanto cidadãos, somos alvos fáceis dos candidatos populistas, aqueles que iludem o cidadão simplesmente para se eleger...

No artigo abaixo, o jornalista Rocha Barros é veemente ao acusar que ao optar pelo populismo esquerdista Lula, caso seja eleito, terá muitas poucas chances de ter um "bom governo".

O que é um "bom governo"? É aquele que atende às necessidades do conjunto da população a curto, médio e longo prazo, adequando as políticas públicas e contribuindo para que diminuam efetivamente as diferenças sociais a níveis aceitáveis, sem comprometer a liberdade de todos e sem a utilização da violência.

É esse o bom governo que, certamente, Lula não fará caso se eleja, ao optar pelo discurso populista - adotado até agora em seus espetáculos públicos (o que é típico de toda prática populista, à direita e à esquerda).

Está em jogo não apenas isso, aponta o articulista: está em jogo também a hegemonia do PT no campo da esquerda. Ora, Lula ao optar pelo populismo de esquerda, em verdade somente retoma o modo lulopetista que possibilitou seus oito anos no poder, elegendo sua sucessora e conduzindo o país ao caos atual.

Ou seja: se Lula for eleito, poderá conduzir o país ainda mais fundo no buraco que as administrações lulopetistas conduziram. Se esse é o preço que terá que pagar para se eleger e retomar a liderança no campo da esquerda, então o futuro do Brasil é o mais sombrio possível. 

Quem viver verá. Fiquem com o artigo de Rocha Barros.


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Líder nas pesquisas com o dobro das intenções de voto do segundo colocado, Lula vem discursando em um tom que parece perfeitamente adequado para quem acha que será impedido pela Justiça de disputar a eleição presidencial.

Seus últimos pronunciamentos parecem perfeitamente calculados para oferecer aos candidatos do PT uma plataforma anti-Temer e anti-reforma que, a esta altura, é bastante popular. Um discurso mais à esquerda também parece uma boa ideia para manter o PT na briga pela liderança da esquerda brasileira, atualmente em disputa. A virada à esquerda de Lula faz sentido estrategicamente, e é o que eu faria no lugar dele, se achasse que não poderia concorrer.

O problema é o seguinte: e se puder concorrer? E se ganhar?

Aí o discurso atual será um problema. Vai ser muito difícil governar repetindo lemas recentes da esquerda como "não há deficit na Previdência". As contas públicas precisam ser ajustadas, a Previdência precisa ser reformada. Há uma recuperação bastante tímida em curso na economia, e ela não pode ser posta em risco. O jogo político brasileiro precisa ser normalizado, o que se conseguirá com mais moderação, não com menos.

Era até de se esperar que a queda da esquerda, após treze anos no governo, fosse seguida de um período de declínio no nível de seu discurso. Picaretagens ideológicas que rastejavam ali pelas margens do discurso, sempre protegidas do teste da prática por sua inviabilidade política, ganharam espaço na conversa. Também há mais moderados do que radicais entre os petistas acusados de corrupção, o que favorece a retórica bastante sectária dos últimos documentos do partido. Uma certa crise de identidade era previsível.

Mas o impeachment foi uma operação tão desastrada que há uma possibilidade real da esquerda vencer agora, logo quando está começando a gostar de ser oposição. Se o plano for ganhar, é hora de interromper a terapia de grupo e voltar a pensar como governo.

Ninguém precisa pedir desculpas por ter defendido o mandato de Dilma, ou por ter feito oposição a Temer —eu não peço. Mas é preciso adotar um discurso sobre economia que reúna o companheiro lé com o companheiro cré. O outro lado foi burro o suficiente para levar o MBL a sério; nós não devemos fazer o mesmo com nossos próprios MBLs.

Lula governou o Brasil por oito anos como moderado, e governou bem. Tem 35% das intenções de voto porque os pobres viveram muito melhor durante seu governo sem que o sistema passasse por maiores turbulências. Fora da bolha do comentariado, ninguém acredita que esteja à mesma distância do centro que Jair Bolsonaro.

Mas o discurso atual da esquerda não dá a Lula a menor chance de fazer um bom governo. Se a esquerda preferir perder a mudar esse discurso, eu sugiro que lance um candidato que não tenha 35% das intenções de voto.

Pela primeira vez na vida, não devo votar em Lula, ao menos no primeiro turno. Mas isso não será por achá-lo radical. É porque não acho correto apoiar um presidente que quer acabar com a Lava Jato só porque ele implementaria as políticas públicas de minha preferência. Isso é coisa de quem apoiou o impeachment.

Não fosse por isso, votaria em um Lula moderado sem piscar. É uma pena que uma alternativa assim ainda não tenha se apresentado ao eleitorado para 2018. 

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Sarney e o xadrez político brasileiro





Engana-se quem pensa que o principal motivador da política brasileira atual, objetivando as eleições de 2018, seja impedir Lula de participar: para as elites conservadores é fundamental que Lula participe das eleições de 2018, para que seus (das elites conservadoras) próprios candidatos possam participar.

A isso essa elite chama de "legitimação" do processo eleitoral - dentro do elástico conceito de "legitimidade" que adotam. Ou seja: caso Lula esteja fora da disputa, a eleição dos candidatos da elite conservadora seriam ilegitimados pela população; caso Lula participe, mesmo correndo o risco de se eleger, legitimaria a eleição também dos candidatos conservadores. 

Resumo da ópera: Lula será candidato e isso está sendo "tramado" e será sancionado pelos bastidores da velha politicagem brasileira. Quem diz isso é uma das raposas felpudas mais antiga do xadrez político atual: José Sarney, na reportagem publicada em valor, intitulada "O conselho de Sarney", da jornalista  Maria Cristina Fernandes, transcrito abaixo. 

A lógica do xadrez político brasileiro é a lógica do sistema eleitoral que permite a perpetuação dos políticos no poder, como a casta mais poderosa do país. Até a definição dos candidatos no primeiro semestre de 2018, não sabemos direito quem ganhará o jogo. 

Após a definição dos candidatos, termina o xadrez. E se ainda não sabemos o resultado das eleições, a casta política conservadora terá plena certeza mesmo assim que continuará no poder. 

E assistiremos a partir desse momento a atuação pura do sistema eleitoral em movimento como máquina de triturar captando a insatisfação da população e transformando-a na continuidade do exercício do poder... pela casta política, especialmente da vertente conservadora, legitimada pela participação dos supostos partidos de esquerda. 

Hoje vivemos o xadrez político dentro da lógica do sistema político. Em 2018 assistiremos a atuação do sistema político. E assim caminha a humanidade, em sua versão brasileira. 

Leiam o artigo de Maria Cristina. Talvez não seja tão amargo como as expectativas que tenho em relação ao futuro da política brasileira.


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Depois da fisioterapia, do banho e do almoço, o ex-presidente José Sarney segue para seu escritório numa torre do Setor Comercial Norte. Aos 87 anos, há três longe de seu último mandato, como senador pelo PMDB do Amapá, Sarney continua a ter um dos gabinetes mais frequentados de Brasília. Recebe políticos de todos os matizes e correligionários do seu Estado de adoção eleitoral, desejosos de ver de volta às urnas o mandatário mais eficiente na gestão da rede de aliados espalhados em postos-chave da República.

Na montagem do quebra-cabeças da sucessão presidencial de 2018, Sarney tornou-se um dos principais conselheiros do presidente Michel Temer. Já fizera o mesmo com os antecessores Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva. Nos seus diários, FHC começa tratando-o por "o mais ardiloso de todos os políticos nacionais", passa para o "mais hábil" e conclui que é "gentil, inteligente, bom conversador, esconde o jogo e nem sempre cumpre".

Sarney esteve pela última vez com Lula no velório de dona Marisa, depois de longo jejum causado por seu engajamento no impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Mas é dele que Sarney se ocupa nas conversas que tem tido com Temer. Além de estimular o presidente a manter várias candidaturas no campo governista, até a mais improvável de todas, a do ocupante do Palácio do Planalto, Sarney defende que a candidatura Lula é um preço a ser pago.

Candidatura Lula seria preço a ser pago pelos aliados

Diz que Lula está para atingir um patamar que levaria sua exclusão a manchar de ilegitimidade a disputa eleitoral, além de aumentar a insegurança da legião de investigados que batem ponto na capital federal. Se Lula ficar de fora, como Aécio Neves, Romero Jucá, Renan Calheiros poderão disputar? Se o petista puder concorrer, que ficha corrida estará impedida de se candidatar?

Lembrado de que, numa eleição com Lula, tudo pode acontecer, até o ex-presidente ganhar, pondera que sua rejeição não lhe permite ser considerado imbatível num segundo turno. Afastado do petismo desde o final do primeiro mandato de Dilma Rousseff, quando foi flagrado por um fotógrafo na cabine eleitoral em cena que sugeria voto em Aécio Neves, Sarney faz uma conta de padeiro. É a mesma que todos os postulantes, de Minas Gerais para cima, já conhece. Lula até pode não ter votos para voltar à Presidência da República, mas será o maior cabo eleitoral de 2018. Tome-se, por exemplo, o que pode vir a acontecer no Maranhão com a família Sarney se o petista for excluído da campanha.

O patriarca quer a filha Roseana (PMDB) no quinto mandato à frente do Estado, contra a reeleição do governador Flávio Dino (PCdoB). O ministro do Meio Ambiente, José Sarney Filho (PV), condenado a disputar eternamente a Câmara dos Deputados pela precedência da irmã, também teria a oportunidade de concorrer, pela primeira vez, a uma vaga no Senado. Até o filho Fernando, hoje vice-presidente da CBF, poderia estrear nas urnas como suplente de senador se o pai resolver encarar mais uma disputa majoritária no Amapá. Nada como esperar o dia amanhã com um foro privilegiado.

O palanque de Lula no Estado é o de Flávio Dino (PCdoB). Um dos autores da Lei da Ficha Limpa, o governador conhece como poucos o trâmite da impugnação eleitoral dela decorrente. Pela sucessão de recursos dos quais Lula pode vir a lançar mão, Dino dá por certo que o ex-presidente, no mínimo, manteria sua candidatura até o fim de agosto. O governador acaba com convergir com seu principal adversário: "No pior das hipóteses, se confirmaria um processo de exclusão ilegítima".

Ouviu de uma eleitora de seu Estado, que o 'velhinho' deve voltar, sinal de que Lula repetiria o queremismo de Getúlio Vargas, embalado, em 1951, pelo jingle de Francisco Alves ("Bota o retrato do velho outra vez, bota no mesmo lugar"). Da classe média que se descolou do lulismo, Dino diz que os efeitos de reformas governistas como a trabalhista se encarregará de devolver os votos. Reconhece que os desempregados mais pobres podem preferir um trabalho intermitente a nada, mas cita a demissão em massa nas faculdades Estácio de Sá, para recontratação sob as novas regras, como exemplo com potencial de atração do eleitor de classe média lulista desgarrado. É difícil imaginar que o professorado seja este eleitor desgarrado do petismo, mas a moda pode pegar no resto da economia.

Nada disso pode reverter uma decisão judicial em última instância e sem possibilidade de embargos ou recursos. Mas se o caldo for de insatisfação e Lula ficar impedido, seu potencial de transferência de votos, que já é o maior do mercado, ficaria potencializado. A opção do ex-presidente pelo ex-prefeito de São Bernardo, Luiz Marinho, para disputar o governo de São Paulo, apenas sacramenta a ideia de que o ex-prefeito da capital, Fernando Haddad, é mantido como reserva estratégica do lulismo. A lei permite a troca do candidato do partido até 20 dias antes da eleição.

É este o cenário que parece preocupar Sarney. Nos Estados em que Lula é mais popular, o governo Michel Temer não tem como esperar que seus aliados possam vir a comemorar sua exclusão. Tirante Jair Bolsonaro, que faz surgir comitês espontâneos no Nordeste, os demais candidatos custam a empolgar, ainda que seja cedo para dizer que Marina não possa vir a crescer como terceira via. A ex-senadora correu para se lançar na esteira da desistência de Luciano Huck e buscar o partido (PPS) que oferecera abrigo ao apresentador. É uma candidatura que enfraqueceria o grupo do PSB favorável ao ex-ministro Joaquim Barbosa. Ao visitar Pernambuco em data que o governador, Paulo Câmara (PSB), estava em viagem, o governador Geraldo Alckmin explicitou as dificuldades em ter o PSB ao seu lado. Se, além de São Paulo e Pernambuco, o PT também acenar com apoio ao PSB no Distrito Federal, ficará mais difícil tirar o PSB do lado de Lula. Com o apoio, em graus variados, dos senadores Renan Calheiros (AL), Eunício Oliveira (CE) e Ciro Nogueira (PI), os petistas rumam para lacrar o Nordeste.

O governador do Maranhão tem vice tucano, mas não duvida que o PSDB terá palanque próprio no Estado. Torce para que Temer conclua o seu, em torno de Roseana, e lhe transfira toda sua popularidade. Daí porque Sarney tem estimulado tantas candidaturas governistas que, somadas, não alcançam dois dígitos. Dissipa o vínculo dos candidatos da base aliada com o governismo e evita que o antilulismo ricocheteie e os atinja.

Maria Cristina Fernandes é jornalista do Valor. Escreve às quintas-feiras

E-mail: mcristina.fernandes@valor.com.br

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

cor e preconceito no brasil: a lógica do mercado







José de Souza Martins, em artigo publicado em Valor, que reproduzo abaixo, deixa bem claro: o brasileiro é em sua maioria pardo: nem branco e nem preto (sim, porque a cor é "preta" e não "negra". Negro é eufemismo para preto.) Eu tenho a honra de me incluir nessa categoria, enquanto mestiço e caipira da gema. 

O sociólogo não diz isso por dizer: diz apoiado em recente pesquisa do IBGE. E conclui que o brasileiro está preocupando-se cada vez mais em definir-se dentro das categorias pardos, brancos e pretos. E a minoria é dos que se definem como pretos. Falo isso sem nenhum preconceito - mesmo porque seria imbecil se tivesse algum preconceito, pois tenho "sangue" de preto e de índio mesclado e circulando por minhas veias, além de sangue também de italiano, português... até onde alcanço a minha ancestralidade.

Martins diz que, no Brasil, essa definição foi dada originalmente pelos senhores de escravos para diferenciar aqueles que nasciam da barriga de escravos e eram escravos e podiam ser comercializados, daqueles que nasciam da barriga dos índios, que não eram escravos e não podiam ser comercializados. Os primeiros eram considerados negros; os segundos eram considerados mestiços. 

Mas como sabemos, e Martins enfatiza, a mestiçagem no Brasil envolveu também brancos e negros, brancos e índios e índios e negros. E o mais correto, do ponto de vista sociológico e étnico, é definir o brasileiro médio como mestiço - nem branco, nem negro e muito menos índio. O negro também é mais ou menos mestiço, assim como o índio. 

Hoje, o brasileiro define-se por essas categorias para ter certos benefícios que foram concedidos pelo... Estado. Com isso, consegue meios mais eficazes para se colocarem no mercado de trabalho e quiçá socialmente - dado que se melhor colocado no mercado de trabalho, terá outro status social. 

Ou seja, Souza Martins não desenvolve seu argumento, mas fica claro ao bom entendedor que a lógica por traz da definição dos brasileiros entre pardos, brancos e pretos é direcionada pela lógica da economia de mercado. 


***


A facilidade com que se fala em racismo no Brasil revela muita coisa e muita coisa esconde. Melhor seria falar em preconceitos, dos quais o preconceito de cor é apenas uma variante. Preconceito de cor, e não de raça, pois o preconceito de raça envolve muito mais que a cor. Envolve também marcas de origem, intuídas, mas não compreendidas. Num cenário culturalmente difuso, a mesma palavra pode significar coisas opostas.

"Negão" é um apelido e tratamento comum entre amigos da mesma cor ou de cor diferente. Ressalta a diferença, mas o tom da palavra expressa afeto e amizade. Essa palavra, usada por pessoa desconhecida ou hostil, diz o oposto e, provavelmente, pode caracterizar intuito ou disposição racista. O mesmo se dá com o "Branquelo", que pardos e pretos às vezes usam para designar um branco. Conforme a circunstância, evidencia afeto na ironia ou insulto racista, o que só pode ser decodificado por aquilo que não foi dito: o olhar, a expressão do rosto, gestos.

Há alguns dias o IBGE divulgou os dados da PNAD Contínua sobre composição racial da população brasileira: pardos, 46,7%; brancos, 44,2%; pretos, 8,2%. Em relação a anos anteriores, o número de pardos e o de pretos aumentou; o número de brancos diminuiu. Dados baseados em autoidentificação, é possível que o brasileiro esteja se tornando mais consciente da questão da cor e mais cuidadoso na identificação da cor de sua pele. Os dados, porém, mostram que os pardos não se reconhecem no grupo dos negros, uma confusão frequente nas disputas ideológicas sobre raças no Brasil.

Este é um país de mestiços. Durante os 388 anos que durou a escravidão negra e durante os 257 anos que durou a escravidão indígena, houve acentuada mestiçagem de etnias negras, as de origem africana, entre si, e de etnias indígenas entre si, as dos pardos. Como houve, também, no cativeiro, mestiçagem de índios e negras, mestiçagem de escravas e índios administrados. Era uma forma de ampliar a escravidão: índios, ao procriarem com uma negra escrava, geravam filhos escravos. Isso valia, também, para os brancos que engravidavam negras escravas.

O ventre cativo da mulher negra era a fonte jurídica da escravidão, o que não acontecia com a mulher indígena, de condição diferente da do negro mercadoria. Gerava filhos escravos de índios em cativeiro que não eram, porém, mercadoria e coisa: não podiam ser vendidos nem comprados. E, mestiçagem de brancos e índias, pais dos mamelucos que foram a cara do brasileiro desde o início da conquista.

As duas categorias sociais que fundamentaram a cultura brasileira da discriminação pela cor, a dos pardos, para os índios, e a dos negros, para os africanos, foram, na verdade, inventadas por brancos. Nem negros nem índios se identificavam como tais ao longo de toda a longa história do escravismo brasileiro. Os nossos pardos, brancos e pretos de hoje frequentemente são mestiços, ainda que no interior da mesma categoria de cor.

Pero Vaz de Caminha, em sua carta ao rei de Portugal, diz que os primeiros seres humanos da nova terra foram vistos no dia 23 de abril de 1500, quinta-feira, de manhã. "Eram pardos", explicou ele, que assim acabara de fazer o batismo racial dos índios, provavelmente pataxó. "Pardo" indicava um critério branco para definir a diferença entre os brancos que chegavam e os nativos que já ali estavam.

Os índios brasileiros nunca se identificaram como pardos. Só tardiamente, já destribalizados, passaram a assumir essa identificação para diferençar-se também dos negros. Em 2014, no julgamento da questão das cotas raciais na Universidade de Brasília, compareceu ao STF e pediu a palavra para falar na condição de "amici curiae" um movimento organizado do Norte do Brasil, autoidentificado como de pardos, para questionar a inclusão demográfica dos pardos na categoria dos negros, o que alargaria as cotas destes últimos em prejuízo dos primeiros.

Os próprios pretos viveram, durante séculos, o drama da usurpação de identidade pelo fato de serem como tais definidos pelos brancos. Do lado dos senhores de escravos, havia nítida consciência de que a categoria preto escamoteava o que era etnicamente próprio das populações escravizadas. Na hora de definir preços, aí, então, com facilidade traficantes e fazendeiros identificavam o traço étnico original do cativo. É que no mercado uns valiam mais e outros valiam menos, em função do que na cultura de origem os tornava mais dóceis e mais adaptáveis ao trabalho do eito.

Na diversidade dos tons de preto, os senhores de escravos viam outra coisa: a maior competência para o trabalho em condições adversas. A escravidão se foi, e a cor ficou como rótulo da subalternização da pessoa.


José de Souza Martins é sociólogo. Membro da Academia Paulista de Letras. Entre outros livros, autor de “Fronteira – A Degradação do Outro nos Confins do Human

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

a força da mentira







Quando tinha cerca de 14 anos e iniciava minha militância política, tive o meu primeiro contato com "Os Protocolos dos Sábios de Sião". Fiquei impressionado com a leitura, mas não tive e dimensão desse texto para a política do início do século XX e até os dias atuais. Pois bem, a israelense Hadassa Ben-Itto foi a fundo em pesquisas e lançou o livro "A Força da Mentira", cujos comentários publicados no jornal Folha de São Paulo, Folha de São Paulo, reproduzo abaixo.

Os "Protocolos" estão nas origens do que chamamos hoje de fake news. E a pesquisa de Hadassa mostra o quanto as notícias falsas foram importantes para os regimes totalitários no século passado, sendo que a importância delas fazem-se sentir até os dias atuais: confira-se a eleição de Donald Trump nos EUA.

Fiquem com os comentários do livro.


***


Quando "Os Protocolos dos Sábios de Sião" foram publicados na Rússia em 1903, ninguém bradava "fake news!" para se referir a notícias falsas, como se tem feito nos anos recentes.

Mas eram falsas as notícias do livro sobre uma conspiração judaica para dominar o mundo, o que não impediu seu uso pelo nazismo para justificar a morte de 6 milhões de judeus.

Esse embuste é narrado no livro "A Força da Mentira" (480 páginas, R$ 81, editora Educ), publicado na próxima quarta-feira (22). A obra, da israelense Hadassa Ben-Itto, 91, foi lançada em 1998 e traduzida a 11 línguas desde então, mas ainda era inédita em português.

Ben-Itto conta uma história de um século atrás, mas a ideia de uma falsidade que tem poder mesmo depois de desmentida é um tema bastante contemporâneo. A própria tese de uma conspiração judaica continua a fomentar o crescente antissemitismo nos EUA e na Europa.

"'Fake news' virou uma coisa da moda, mas os protocolos são 'fake news' há cem anos", a autora diz à Folha. "Líderes políticos ainda utilizam a tese da trama judaica até hoje, como os nazistas fizeram. Serve de álibi para o que está acontecendo de ruim em seus países."

Nascida na Polônia, Ben-Itto foi juíza por 31 anos em Israel, um período durante o qual se deparou inúmeras vezes com histórias sobre os "Protocolos dos Sábios de Sião", um livro que forja as minutas de uma inexistente reunião de judeus para discutir a dominação mundial.

Se a princípio ela tratou a história como algo trivial, aos poucos passou a lhe incomodar o fato de que uma mentira sobre os judeus perdurasse tanto tempo. "O livro foi publicado por décadas em todo o mundo, em dezenas de línguas, sem ninguém fazer nada", afirma.

Ela decidiu antecipar a aposentadoria, abandonar as cortes e viajar ao redor do mundo com um laptop embaixo do braço para investigar a história dos protocolos. Seis anos depois, publicou seu best-seller ("sem notas de rodapé, sem linguagem acadêmica, para ser lido").

"Lidei com muitos fatos enquanto era juíza, e sei que os fatos são importantes", diz à Folha. "Mas o que fazer quando os fatos são pervertidos? A única solução é dizermos a verdade."

A publicação de "A Força da Mentira" foi financiada coletivamente a partir de um projeto da jornalista brasileira Miriam Sanger, baseada em Israel. O livro faz parte de uma nova linha da Educ dedicada a temas judaicos —a PUC-SP tem há sete anos uma cátedra nessa área.

O presidente da cátedra, José Luiz Goldfarb, que também chefia a editora, foi dono da icônica livraria Belas Artes, fechada em 2006. Ele se lembra de quando "pessoas sacanas entravam pedindo o livro". "Faziam como provocação, para que eu tivesse a obra nas prateleiras."

"Descobri que 'A Força da Mentira' tinha essa pegada 'fake news' e me apaixonei pelo tema", diz. "'Uma mentira como a dos protocolos teve um impacto enorme na história do século 20."

A obra da juíza Ben-Itto, nesse sentido, trata da persistência dessas falsidades. Os protocolos, afinal, ainda estão à venda —a descrição da obra na loja da Amazon não explicita que a história é falsa, e diz que "o leitor poderá elaborar a sua própria conclusão".

"Por mais que uma mentira seja desmentida, ela sobrevive", diz Goldfarb, que nos anos 1980 decidiu não vender os protocolos em sua livraria. Há então o debate: "Será que a liberdade de expressão se sobrepõe a um discurso mais efetivo do que as armas?"

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

saudades do comunismo? nem os russos têm!

LUSTRAÇÃO DE FERNANDO VICENTE PARA O MANIFESTO COMUNISTA

O comunismo é uma das ideologias retrógradas que assustaram o sangrento século XX (a outra foi o nazi-fascismo). Isso não quer dizer que o século XXI esteja sendo menos sangrento. E nem que tenha surgido alguma outra ideologia neste século, que não seja também retrógrada. 

A imensa maioria dos russos não sente mais saudades do comunismo que, como se sabe, animou a chamada revolução russa. É o que diz com todas as letras a matéria de Clóvis Rossi, que reproduzo abaixo, publicada no jornal Folha de São Paulo. 

Isso quer dizer que não há mais clima para o comunismo? Não, ainda há muitos adeptos, seja entre os russos e ainda espalhados pelo mundo. A dificuldade é que o comunismo, assim como outras ideologias totalitárias, tem que conviver com a democracia, onde prevalece a pluralismo de valores (e portanto de ideologias), a economia de mercado, as chamadas liberdades civis e a procura do consenso pelo diálogo, nunca pela violência.

Como se sabe, o totalitarismo no século XX, representado pelo comunismo e pelo nazi-fascismo, negava tudo isso: democracia, pluralismo de valores (e portanto de ideologias), economia de mercado, liberdades civis e a procura do consenso pelo diálogo, optando pela utilização da violência.

O chamado "centralismo democrático" apregoado pelos comunistas nada mais foi do que um simulacro de "método" democrático para conduzir as massas, eliminando os opositores internos do partido, além obviamente dos externos. 

Não há como falar em comunismo, sem lembrar toda a produção de Milan Kundera, especialmente o romance-depoimento "A Insustentável Leveza do Ser". Trata-se de poderoso antídoto para todo aquele que for inteligente e estiver disposto a entender criticamente o que significa e significou o comunismo.

Mas, enfim, acho que não há muito que comemorar quando se completa 100 anos da chamada "revolução russa". A ascensão da classe operária não se deu através do comunismo pelo mundo afora, mas pela luta da "social democracia" - de onde emergiu o movimento comunista no século XIX. 

Se há tendência que se possa considerar vitoriosa é a social democracia. Inclusive isso deveria ser levado em consideração pelos próprios partidos comunistas que disputam o poder no espaço democrático com outros partidos, pacificamente, resultante da luta social democrata pelo mundo afora. 

É claro, no entanto, que os comunistas têm nos sociais democratas seus principais opositores: vide a aversão que os petistas tem pelos peessedebistas e vice-versa. Ou seja: não se trata de preconceitos ideológicos tão somente comunistas (muito embora o PT não seja, estritamente, partido comunista), como também sociais democratas. 

Mas enfim, leiam o que o mestre Clóvis Rossi escreveu. Vale a pena.


***


O comunismo faz falta não pelo que foi, um regime de horrores que sepultou todas as liberdades e, se já não fosse o bastante (para mim é o suficiente), ainda se revelou de uma tremenda ineficiência.

A julgar por recente pesquisa do Centro de Estudos da Opinião Pública, citada na edição desta terça-feira (7) por "El País", os russos também não sentem lá muitas saudades do único regime que a maioria deles conheceu em sua vida: a personalidade mais simpática aos russos de hoje é justamente o czar Nicolau 2º, deposto e logo em seguida morto pela Revolução de Outubro, essa cujo centenário se comemora neste 7 de novembro (pelo calendário gregoriano).

A pesquisa mostra que 60% simpatizam com o czar, 18 pontos percentuais acima dos 42% registrados na pesquisa anterior, feita em 2005.

É notável que, 99 anos depois de sua morte, sua figura permaneça simpática, apesar dos 74 anos que durou um regime que demonizava tudo e todos que simbolizavam o modelo anterior.

A pesquisa passa a impressão de que os russos são atavicamente inclinados aos homens fortes, talvez por não terem conhecido na sua história outro tipo de líderes. Ao czar, seguem-se em simpatia, pela ordem, Felix Dherzhinski, criador da polícia política (57%), Lênin, o mais notável dos líderes comunistas (53%) e, logo abaixo, Stálin (52%), símbolo maior da repressão que marcou a época comunista.

Fecho o parêntesis para voltar ao início, ou seja, ao motivo pelo qual o comunismo deixa saudades: foi em parte graças a ele que a Europa conseguiu montar um modelo de bem-estar social que é o menos imperfeito que o ser humano construiu até agora.

Claro que os primeiros tijolos do modelo datam pelo menos do século 19, antes portanto da Revolução de Outubro. Mas foi depois da 2ª guerra (1939-1945) que os países europeus foram aperfeiçoando o sistema, em parte para evitar que o comunismo atraísse simpatizantes e algum partido comunista acabasse por chegar ao poder, pelas urnas, em algum desses países

Reproduzo coluna publicada faz exatamente 20 anos que ajuda a entender as saudades que alguns sentem do comunismo.

"Vou à cidade de Schwerin, no que foi, até 90, a RDA (República Democrática Alemã ou a Alemanha comunista). Encontros com empresários na agenda.

Esperava ouvir hinos de louvor ao capitalismo e de repúdio visceral ao passado. Não foi bem assim.

Comecemos com Gerd Gull, 46 anos, dono de duas pequenas empresas de construção civil, 43 empregados e faturamento anual de 5,3 milhões de marcos [a moeda da época, equivalente então a R$ 3,5 milhões].

Não é um saudosista nem comunista ou ex-comunista. Votava com os liberais mesmo no tempo do comunismo (o Partido Liberal Democrático da Alemanha Oriental jogava o jogo, na época, o que só comprova que muitos liberais são tão liberais que querem até a liberdade de participar de ditaduras. Como no Brasil, aliás).

Gull é um realista. 'A RDA, nos seus últimos anos, estava falida econômica e politicamente', diz. Nem por isso, deixa de reconhecer que 'a qualidade do ensino, de modo geral, era boa'. Tão boa que pôde formar-se primeiro como pedreiro, depois como mestre-de-obras, instrumental que lhe permite hoje comandar duas empresas.

Ambas vão bem, o que impede qualquer nostalgia do passado. Mas não a angústia 'pelo que vejo acontecer à minha volta'.

À sua volta está acontecendo o choque de, de repente, uma sociedade, 'acostumada a que o governo tomasse conta de tudo, do parto ao enterro', como diz Gull, ver-se lançada à aventura de cuidar da própria vida.

Muitos não conseguem: o desemprego na região bate nos 20%. 'Muita gente reclama, porque não ter uma função na sociedade é uma coisa que não havia antes', reforça Angela Preuss, gerente da Câmara de Indústria e Comércio da cidade.

Talvez por isso, Schwerin parece uma cidade triste, cinza, que guarda cicatrizes tanto da devastação gerada pela ineficiência do comunismo como das dores do mergulho no capitalismo".

Uma vez, em debate na TV Bandeirantes com o então deputado Roberto Campos (1917/2001), o grande ícone do liberalismo brasileiro, disse-lhe algo assim: "Olha, deputado, vocês, liberais, ganharam a batalha ideológica com o comunismo. Agora, precisam demonstrar que o modelo é capaz de servir às maiorias".

O capitalismo continua devendo, mas, em vez de ressuscitar o comunismo irremediavelmente falido, está permitindo, pelo menos na Europa, o avanço da extrema-direita, que não é essencialmente diferente do comunismo, ao menos no fascínio pelos homens-fortes.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

limitação da cognição política e outras limitações




Magritte

Então, retomando uma de minhas diversões prediletas, às segunda-feira sempre gostava e volto a gostar de ler os textos que Pondé publica no jornal Folha de São Paulo, e estabelecer algumas críticas.

Ao longo dos anos tenho estabelecido alguns pontos de concordância e outros discordantes sem que, para tanto, isso seja "importante" seja para mim, seja para o próprio Pondé (que, obviamente, jamais perderia tempo em ler minhas considerações). 

No texto de hoje, intitulado "Os limites da cognição política, uma dos conceitos mais elegantes da filosofia", Pondé detém-se no que chama de "limite da cognição política" como um dos conceitos mais elegantes (segundo ele) da filosofia.

Para tornar minimamente compreensível suas afirmações, Pondé retira de seu balaio filosófico algumas vagas noções de "epistemologia", acenando com a noção do que é conhecido como "navalha de Occan" (ou Ockham, na grafia de Pondé). 

Antes de migrar para a epistemologia (ou "teoria do conhecimento científico", numa abordagem mais influenciada por Karl Popper), esse "conceito" teve conotações lógicas e, por isso, não se atendo apenas à ciência, mas a todo o conhecimento humano.

Podemos dizer, grosso modo, que como "princípio", a "navalha de Ockham" (ou Occam) refere-se à hipótese de sempre a explicação mais simples de um fenômeno, ser a mais correta. 

Assim para todo o conhecimento humano. Sempre há várias explicações para um mesmo fenômeno. O princípio estabelece um critério de "parcimônia" ou "bom senso" nas explicações para qualquer assunto humano e, assim, provavelmente a explicação mais simples seja a mais correta. 

É um conceito obviamente reducionista mas, atualmente, contribui para que se estabeleçam "consensos" diante da complexidade dos fenômenos, sejam na "natureza", sejam no âmbito propriamente humano. Esse princípio reducionista passou, assim, a ser adotado amplamente pelos estudiosos, dos mais diversos campos do saber.

Assim em política, como afirma Pondé, a explicação mais simples seria aquela que combine posições mais restritivas, na medida em que não temos como processar a complexidade dos fatos que direta ou indiretamente, interferem no campo que chamamos propriamente "político".

É claro que Pondé vai ancorar suas ideais sempre no ideário mais liberal, estabelecendo diálogo (nem sempre construtivo) com o ideário mais à esquerda. Assim, se o ideário liberal é mais restritivo às limitações humanas, o mais à esquerda seria mais irrestrito...

Ora, trata-se do que se conhece como "discussão bizantina": o que explica mais, a teoria universalista ou a reducionista? Estaríamos voltando à "questão dos universais" que durante muito tempo embalou a discussão entre os filósofos... na Idade Média, opondo-se "universalistas" e "nominalistas". 

Não se trata apenas de saber sobre a relação entre os "universais" e as coisas, mas também dos "particulares" e as coisas além de, obviamente, estabelecer o que sejam as "coisas". Enfim, uma discussão bizantina típica.

Assim, perdoe-me Pondé e os seus admiradores, mas me senti, lendo o texto que abaixo transcrevo, como se estivesse descascando uma cebola...


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Tempos ruins. Grande parte da "nova direita", infelizmente, deu pra imitar a direita "cultural" americana e está indo para a guerra cultural, combatendo exposições de arte que "uma multidão de dez pessoas" frequenta. Nesse caso, a nova direita segue de perto a "new left", também americana, obcecada também, como a nova direita, por sexo, penetração, crianças gozando, bebês trans, boquetes em público, sexo anal no jardim, enfim, tudo isso que inteligentinhos dizem ser uma "construção social".

Uma das tragédias da discussão política hoje é que grande parte da inteligência pública é parte da histeria. A verdade é que a "inteligência" política está sempre aquém da política. O que isso quer dizer? Isso quer dizer que, na política, como em tudo mais, não temos capacidade cognitiva pra armazenar e processar tanta informação ou dados.

Com isso não quero me colocar ao lado daqueles que, quando ouvem a palavra "algoritmoooooo", têm orgasmos múltiplos. Nem daqueles que pensam que a política será resolvida pela "Singularity University" porque geladeiras conversarão com fogões num mundo ideal. Nem daqueles que sonham com um algoritmo como líder máximo.

Um dos conceitos em filosofia política ou ciências políticas que mais me parece elegante é o de "cognição política". "Elegância" em filosofia (ou epistemologia, para os que estão mais habituados com o repertório filosófico) significa (de forma grosseira, mas correta), segundo Guilherme de Ockham (1285-1347), seu criador, "dizer muito sobre a realidade do mundo, de modo preciso e da forma mais curta possível". Quanto mais uma teoria ou conceito é simples na expressão e amplo na compreensão dos fenômenos, mais elegante ele é. Esta é a "navalha de Ockham".

A verdade é que não temos capacidade de lidar com o montante de dados que a política produz, logo, humildade, e não utopia, é a melhor atitude epistemológica aqui -e não apenas ética ou política.

Epistemologia é a parte da filosofia que estuda o conhecimento, logo, a cognição e seus modos de organização. Dizer que temos limites cognitivos pra entender a política significa dizer que nossa capacidade de armazenar e processar dados políticos está aquém da quantidade de dados que a realidade política produz. Dito de forma simples: nunca sabemos ao certo o que está acontecendo na política, tampouco os políticos.

Esse fato não implica a inviabilidade da política como saber ou prática, mas implica visões distintas da política, sua ciência e sua prática. Outro fator complicador é que a política se mistura com moral, psicologia e psicopatologias diversas, neurociências, sociologia, religião, marketing, mentiras banais, vaidades, economia, sexo. Enfim, uma infinidade de realidades que tornam impossível uma ideia clara e distinta sobre elas e suas relações.

Mas calma! Não entre em pânico por conta dessa neurose de "engenharia das coisas" que nos afeta, pior do que tesão pela "internet das coisas". Dizer que nossa capacidade de cognição política não suporta tantos fenômenos não quer dizer incapacidade total, quer dizer cuidado com visões de mundo que implicam uma crença numa percepção perfeita da política e dos homens. Proponho que você leia "Conflito de Visões", de Thomas Sowell, publicado entre nós pela É Realizações.

Crer na capacidade plena de nossa cognição política é ter uma "visão irrestrita" do homem (nos termos de Sowell), é crer em sua perfectibilidade infinita via engenharia social e política. É crer na política como esfera de soluções para problemas claramente compreendidos. Uma mistura de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) com René Descartes (1596-1650). É crer em nossa capacidade irrestrita de ação racional no mundo.

Uma "visão restrita" do homem é crer que sua cognição é limitada e que tudo que podemos fazer são "trade-offs" (negociar) com os problemas que conhecemos "mais ou menos". É uma mistura de David Hume (1711-1776) com Adam Smith (1723-1790).

Se você for um cético como eu, deverá preferir David Hume e Adam Smith aos delírios do andarilho solitário Rousseau.